Sérgio Sampaio

Nome completo: ( carece de fonte )
Nome artístico: Sérgio Sampaio
Data de nascimento:
Local: Cachoeiro do Itapemirim
Data de falecimento:
Local:
Gênero: MPB.
SÉRGIO SAMPAIO / Grã-Ordem da Sociedade Kavernista
Nota: Trechos do livro "Eu quero é botar meu bloco na rua - Biografia de Sérgio Sampaio" de Rodrigo Moreira - Ed. Muiraquitã, Niterói, RJ, 2000, Págs. 40/45:
"Embora comercialmente bem sucedido, desde muito tempo Raul Seixas sentia-se tolhido e frustrado como produtor e compositor de sucessos alheios, nenhum deles à altura de seu verdadeiro potencial artístico e ideológico... Ele viu em Sérgio (Sampaio) o parceiro ideal para um novo projeto musical, absurdo para aquela época. Um disco conceitual ainda mais ousado que "Johnny McCartney", para o qual já tinham algumas parcerias prontas. Contudo, queriam formar um grupo para a empreitada, e o primeiro a ser chamado foi um velho amigo baiano de Raul, Edy.
...Raul queria uma mulher para completar o grupo... Aí - Edy lembra - resolveu ligar para São Paulo e convidar uma cantora que tinha feito sucesso em 70, num show na Boate Drink. Era Míriam Batucada, uma engraçada e anti-convencional sambista muito original e talentosa, mas eterna deslocada no cenário da MPB...
Com a chegada de Míriam, logo apelidada por Raul e Sérgio de "Dr. Silvana", estava pronta a "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista". Nas palavras de Sérgio, "aquilo foi o desespero. Na verdade , o Raul sempre foi louco e com mania de fundar sociedades,(...). O nome "Kavernista" pintou porque naquela época a gente falava muito em voltar às origens, aquele papo que os homens iriam viver em caverna depois da explosão da bomba atômica, essas maluquices."
SOCIEDADE DA GRÃ-ORDEM KAVERNISTA - SESSÃO DAS DEZ
Lado A
1-Êta vida (Raul Seixas/Sérgio Sampaio) -voz: Raul Seixas e Sérgio Sampaio
2-Sessão das dez (Raul Seixas) - voz: Edy
3-Eu vou botar pra ferver (Raul Seixas) - voz: Sérgio Sampaio e Raul Seixas
4-Eu acho graça (Sérgio Sampaio) - voz: Sérgio Sampaio
5-Chorinho inconsequente (Sérgio Sampaio/Erivaldo Santos) - voz: Míriam Batucada
6-Quero ir (Raul Seixas/Sérgio Sampaio) - voz: Raul Seixas e Sérgio Sampaio
Lado B
1-Soul tabarôa (Antonio Carlos/Jocafi) - voz:Míriam Batucada
2-Todo mundo está feliz (Sérgio Sampaio) - voz: Sérgio Sampaio
3-Aos trancos e barrancos (Raul Seixas) - voz: Raul Seixas
4-Eu não quero dizer nada (Sérgio Sampaio) - voz: Edy
5-Dr. Pacheco (Raul Seixas) - voz: Raul Seixas
CRUEL - SÉRGIO SAMPAIO
A fita de demonstração deixada por Sérgio Sampaio realmente virou CD, inicialmente em um lançamento não oficial que circulou entre colecionadores, com as versões "cruas" das gravações. Uma versão do CD não oficial tinha a fala de Sampaio anunciando cada uma das faixas, já outra versão teve as falas editadas. Abaixo uma das capas do CD não oficial:
SÉRGIO SAMPAIO - INÉDITO
1-Em nome de Deus
2-Roda morta ou reflexões de um executivo
3-Polícia, bandido, cachorro e dentista
4-Brasília
5-Quero encontrar um amor
6-Magia pura
7-Muito além do jardim
8-Destino trabalhador
9-Pavio do destino
10-Uma quase mulher
11-Rosa púrpura de Cubatão
12-Chuva fina
13-Eu quero é botar meu bloco na rua - 1998
Quem acabou se entusiasmando pelo projeto de lançar o disco que Sérgio Sampaio teria feito, se não tivesse nos deixado tão prematuramente, foi o cantor e compositor Zeca Baleiro, confessadamente influenciado pela obra de Sampaio, de quem era admirador, como ele mesmo fala no encarte do CD "Cruel":
"A ideia original do projeto era vestir as canções com delicadeza, sem excessos, apenas realçando as sugestões de arranjo contidas no violão do Sampaio. Tínhamos o desafio de contornar as dificuldades de andamento e afinação das gravações, em parte displicentes, já que não haviam sido feitas como versões definitivas para o disco. Isso só foi possível graças ao envolvimento dos músicos convidados, alguns dos quais se confessaram verdadeiramente emocionados por participarem da empreitada. Caso do guitarrista Tuco Marcondes, que contou, durante a gravação, ter resolvido tornar-se músico profissional depois de assistir ao primeiro show de sua vida, exatamente um show de Sampaio, acompanhado do guitarrista Renato Piau, em Sã Paulo, nos idos anos 1970...
Realizar esse disco, entre outros significados, teve pra mim um sentido de retribuição. Digo isso porque, se me tornei compositor, devo esse destino a alguns espantos que experimentei pela vida afora, como por exemplo, o que tive ao ouvir Sérgio Sampaio pela primeira vez no velho rádio valvulado do meu pai, mágica da infância que ainda hoje ressoa na minha memória" (Zeca Baleiro)
SÉRGIO SAMPAIO - CRUEL
1-Em nome de deus
2-Roda morta
3-Polícia bandido cachorro dentista
4-Brasília
5-Magia pura
6-Rosa púrpura de Cubatão
7-Muito além do jardim
8-Real beleza
9-Pavio do destino
10-Quero encontrar um amor
11-Quem é do amor
12-Cruel
13-Uma quase mulher
14-Maiúsculo
Produção de Zeca Baleiro - Lançamento da Saravá Discos
Pra comprar o CD: www.zecabaleiro.com.br
BALAIO DO SAMPAIO / Trechos de Matéria de Alfredo Herkenhoff no “Jornal do Brasil” de 19/12/96:
“Morreu há dois anos, mas parecia morto mesmo antes. Nenhum disco em catálogo, nenhum espaço na mídia. De repente estava lá no letreiro do Hipódromo Up: “Balaio do Sampaio”. O que se viu na semana passada não foi um simples show. Foi a primeira celebração a um grande compositor popular. Sérgio Sampaio, morto aos 47 anos, de pancreatite causada por álcool, lotou a casa, deixando gente do lado de fora e gente dentro emocionada com o seu legado.
O ressurgimento se deve ao compositor Sérgio Natureza e ao violonista e guitarrista Renato Piau que, nos moldes do Baú do Raul, lançaram o Balaio do Sampaio para botar o bloco na rua. Sampaio, que viveu e morreu de música, quando roubavam-lhe uma idéia, não pensava em plágio. Preferia elogiar: “Fulano é muito criativo”. Como bebia muito e muitas vezes tinha atitudes inconvenientes, ficou marcado como mais um maldito. Eduardo Dussek abriu o espetáculo cantando “Bode” (Eu não quero esse bode/esse bode é igual/aquele carnaval que eu passei sem você). Maestros, atrizes, poetas e cantores novos, muita gente subiu ao palco e brilhou no espetáculo com script bem pensado por Sérgio Natureza. Foi apoteótica a forma como Alceu Valença encerrou a noite cantando “Meu bloco na rua”. Na definição de Piau, Sampaio é o cantor mais impopular do Brasil. Que importa se Chico César o vem citando como uma de suas referências ? Se Bethânia, Zizi Possi, Elba Ramalho, Erasmo Carlos, Melodia e outros o gravaram ? Se Roberto Moura e Tárik de Souza gostam ? Se Fidel Castro...? Não existe nada de Sampaio nas lojas.”
BALAIO DO SAMPAIO - Vários
1-Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio) - voz : Sérgio Sampaio
2-Em nome de Deus (Sérgio Sampaio) - voz: Chico César
3-Feminino coração de Deus (Sérgio Sampaio) - voz: Erasmo Carlos
4-Rosa púrpura de cubatão (Sérgio Sampaio) - voz: João Bosco
5-Tem que acontecer (Sérgio Sampaio) - voz: Zeca Baleiro
6-Meu pobre blues (Sérgio Sampaio) - voz: Zizi Possi
7-Pavio do destino (Sérgio Sampaio) - voz: Lenine
8-Até outro dia (Sérgio Sampaio) - voz: João Nogueira
9-Velho bode (Sérgio Sampaio) - voz: Eduardo Dussek
10-Que loucura (Sérgio Sampaio) - voz: Renato Piau
11-Velho bandido (Sérgio Sampaio) - voz: Jards Macalé
12-Cala a boca Zé Bedeu (Maestro Raul Sampaio) - voz: Luiz Melodia
13-Eu quero é botar meu bloco na rua (Forró/Frevo) (Sérgio Sampaio) - voz: Elba Ramalho
Continuação da matéria de Alfredo Herkenhoff:
"Pouco antes de morrer, Sampaio gravou 14 músicas inéditas no estúdio profissional de Felipe Cavalieri (leia-se Egberto Gismonti), em Salvador. A fita-demonstrativa pode virar CD."
[ Fonte: falasmusicais.blogspot.com ]

SÉRGIO SAMPAIO – ONTEM E AGORA
Por Rodrigo Moreira*
A trajetória errática do capixaba Sérgio Sampaio sempre desafiou explicações. Depois de sacudir o país em 1972 com a marcha-rancho “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua” – um sucesso estrondoso, que realmente marcou época –, o compositor viu pouco a pouco sua carreira estagnar. Difícil de entender porque um artista de evidente talento – melodista sensível, poeta inspirado, expressivo cantor, violonista competente – acabou por não alcançar, em seu tempo, a popularidade e o prestígio devidos. Há quem diga que o sucesso foi da música, não do cantor e compositor – uma análise um tanto simplista, mas não desprovida de um certo fundo de verdade.
Nascido em 1947, em Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo, filho de Raul Gonçalves Sampaio, maestro de banda e compositor, e de Maria de Lourdes Moraes, professora primária, Sérgio Sampaio recebeu do pai as primeiras influências musicais, tendo curtido na adolescência grande paixão pelo repertório seresteiro de Orlando Silva, Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves. Em 1967, enamorado da ebulição cultural do Rio de Janeiro, foi para lá em busca de um lugar no céu estrelado da MPB. Atuou por dois anos como locutor de rádio nas AMs cariocas, enquanto desenvolvia também o seu trabalho musical. Em fins de 1970, foi descoberto acidentalmente pelo produtor Raul Seixas, quando acompanhava ao violão um aspirante a cantor, num teste na gravadora CBS.
Contratado pela CBS, Sérgio fez sua estréia, em meados de 1971, com o compacto “Coco Verde/Ana Juan”, produzido por Raul. Meses depois, Raul, Sérgio e mais Míriam Batucada e Edy Starr gravaram o polêmico disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez”, que causou grande celeuma na CBS. Uma verdadeira sessão de escracho, com paródias e pastiches musicais temperadas com um humor corrosivo, esse trabalho trazia algumas parcerias de Sérgio e Raul, como o xote elétrico “Quero ir” e o acid rock “Doutor Pacheco”. No mesmo ano, o artista defendeu no V FIC sua composição “Ano 83”, que permanece inédita em disco.
Em 1972, já integrando o elenco da Phillips/Phonogram, Sérgio apresentou no sétimo e último FIC a marcha-rancho “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. Mesmo não tendo sido a vencedora, a música foi o maior sucesso do evento. O compacto lançado a seguir venderia cerca de 500 mil unidades. Em meio ao êxito avassalador da música, Sampaio, jovem e sem dispor ainda de uma estrutura profissional sólida, adotou uma postura arredia frente ao intenso assédio da mídia, o que acabaria lhe custando a fama de artista “temperamental” e “difícil”.
Em março de 1973 foi lançado seu primeiro LP, que levou o título de seu maior sucesso. Embora trazendo sambas de apelo popular (“Cala a Boca, Zebedeu”, de autoria de seu pai, e “Odete”) e incursões personalíssimas pela música pop (“Leros e Leros e Boleros”, “Eu Sou Aquele Que Disse”), o disco teve uma vendagem modesta, além de ser recebido pela crítica com desapontamento notável. Mais à frente, sua composição “Quatro Paredes” foi gravada parcialmente por Maria Bethânia, encaixada num pot-pourri no disco “A Cena Muda”.
No início de 1974 saiu o compacto “Meu Pobre Blues / Foi Ela”. A primeira, uma dúbia elegia ao conterrâneo Roberto Carlos, de letra desconcertante, alcançou boa repercussão. Foi sua despedida da Phillips. Ele só retornaria à cena musical em 1975, já na gravadora Continental, lançando o compacto “Velho Bandido / O Teto da Minha Casa”, com boa aceitação popular e críticas muito favoráveis. Ainda em 1975, a irônica marchinha “Cantor de Rádio”, onde o artista alfinetava a indústria musical, foi incluída no LP “Convocação Geral nº 2”, da Som Livre.
Em 1976, Sérgio lançou seu segundo LP, “Tem Que Acontecer”, considerado por muitos seu melhor trabalho. Com produção de Roberto Moura e arranjos do violonista João de Aquino, no disco brilhavam instrumentistas como Altamiro Carrilho (flauta), Abel Ferreira (clarinete) e Joel Nascimento (bandolim). Sérgio aliava o vigor interpretativo e poético dos primeiros anos a uma maior maturidade como compositor, em obras bem acabadas, como o amargo samba “Até Outro Dia”, o samba-canção “Velho Bode” (em parceria com Sérgio Natureza), o fox “Que Loucura” (uma letra em homenagem ao poeta tropicalista Torquato Neto) e a faixa-título. O disco foi bem recebido junto à crítica mas não alcançou o sucesso esperado.
Em meados de 1977, ainda na Continental, Sérgio Sampaio lançou mais um compacto, “Ninguém Vive Por Mim / História de Boêmio (Um Abraço em Nelson Gonçalves)”. A primeira, um pop altamente suingado, foi bem executada nas rádios, apesar da letra cáustica, novamente enfocando a difícil relação do compositor com a indústria do disco. Foi o derradeiro trabalho de Sampaio por uma gravadora oficial. Dali em diante, já arrolado entre os “malditos” da MPB, ele seria um artista independente, sem gravadora e sem música no rádio, vivendo apenas de shows eventuais para um séquito fiel de admiradores em todo o país.
Em 1981, Erasmo Carlos gravou em seu LP “Mulher” a canção “Feminino Coração de Deus”, composta por Sérgio especialmente para ele. No ano seguinte, Sampaio lançou o disco independente “Sinceramente”. Como o título sugeria, um trabalho de grande desnudamento pessoal do compositor. No entanto, mais uma vez a repercussão foi pequena, a despeito da qualidade de canções como “Nem Assim”, “Tolo Fui Eu” e “Essa Tal de Mentira”. O disco trazia também o samba “Doce Melodia”, onde o homenageado Luiz Melodia terçava vozes com Sérgio.
Durante os anos 1980, o artista viveu praticamente no limbo profissional, com escassos shows em bares a minguados cachês. Em seus longos retiros em sua cidade natal, porém, ele compunha sempre e cada vez melhor. Suas melodias se tornaram mais elaboradas, ao mesmo tempo conservando seu despojamento tão característico. Passou a criar harmonias com maior esmero e sua poesia atingiu o perfeito balanço entre lirismo, humor, perspicácia e concisão.
Nos longos anos em que esteve relegado ao acostamento da cena musical, Sérgio apresentou-se quase sempre sozinho com seu violão, maturando sua performance ao máximo. De um balaio de cerca de 50 canções que ele mostrava nessas apresentações, ele escolheria o repertório do cd “Cruel”, que seria produzido pela gravadora paulista Baratos Afins em 1994, e que marcaria a volta de Sérgio ao disco, projeto abortado pela morte do artista, em maio daquele ano, ocasionada por uma crise de pancreatite.
Mesmo hoje, tantos anos após sua morte, Sérgio Sampaio continua a ser um dos artistas mais verdadeiros, inquietantes e enigmáticos da história da MPB.
*Rodrigo Moreira
(autor da biografia “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua” - Edições Muiraquitã, 2000)
[ Fonte: sergiosampaio.uol.com.br ]
[ Editado por Pedro Jorge ]
